domingo, 27 de abril de 2008

A MÍDIA “VALENTE, INDEPENDENTE E ÍNTEGRA”

Laerte Braga*
O espetáculo promovido pela mídia em torno da morte da menina Isabela começa a perder força no quesito audiência, único objetivo real das grandes redes de tevê e amanhã o ponto culminante do show da morte deve assinalar o início do declínio do noticiário. A partir de segunda-feira o general William Bonner reassume o comando das tropas na guerra contra a Venezuela, os “terroristas” das FARCS-EP, os índios (armados de arcos e flechas contra fazendeiros/pistoleiros e as tropas do general “Heleno de Tróia”) e agora com ingrediente novo: a defesa da soberania e da integridade nacionais no item Itaipu. Como não vão conseguir comprar Lugo como compraram outros governantes daquele país, Lugo vira um perigo. Nem sempre foi assim. Nem sempre foram tão “valentes, independentes e íntegras”. Em 18 de maio de 1973 Aracelli Cabrera Sanches foi assassinada no Estado do Espírito Santo por jovens viciados em droga e filhos de famílias poderosas. Tinha oito anos de idade. As notícias pararam de ser divulgadas quando começaram a aparecer os nomes dos possíveis suspeitos. As redes de tevê sentaram em cima e se calaram. Houve queima de arquivo, a mãe da menina era traficante e as ligações entre os dois crimes, Aracelli e Ana Lídia eram claras: tráfico de drogas. Em setembro do mesmo ano a menina Ana Lídia Braga, de cinco anos, foi assassinada em condições brutais em Brasília e dois dos suspeitos eram filhos de autoridades da ditadura. Alfredo Buzaid Júnior, filho do ministro da Justiça do governo Médice e Eduardo Eurico Resende, filho do senador capixaba Eurico Resende, um dos líderes da ditadura no Senado. As redes de tevê sentaram em cima e calaram. Alfredo Buzaid Júnior recusou-se inclusive a atender a uma intimação da Justiça de Brasília, viajou para São Paulo e tempos depois acabou prestando depoimento por precatória. Collor de Mello, filho de outro senador, Arnon de Melo, mais tarde presidente inventado pela GLOBO, era outro dos suspeitos. A menina foi morta no sítio do senador Eurico Resende. Buzaidinho, como era conhecido, piloto em provas automobilísticas, morreu quando voltava de uma dessas provas num acidente considerado suspeito. E não foram só as redes de tevê não. Jornais, revistas, rádios, o silêncio foi total a partir do momento que perceberam que pessoas poderosas estavam envolvidas nos dois crimes. Dois pesos e duas medidas ou características diversas de tempo e espaço? Ambas as respostas estão certas. Nos momentos da ditadura a mídia “valente, independente e íntegra” sentou em cima e nos momentos de democracia, essa mesma mídia se volta para o objetivo de transformar o ser humano em freqüentador de shoppings e adorador de vitrines. Serve sempre aos donos que continuam a ser os mesmos em momentos diferentes. Mas os mesmos. No fim do show fica esperando os aplausos, tudo em alta definição.
*Laerte Braga é Jornalista

Nenhum comentário: