terça-feira, 4 de março de 2008

Machado de Assis

Machado, a polêmica do cinqüentenário
por Jayme Copstein

Transcorre este ano, sem polêmicas, o centenário da morte de Machado de Assis. Não foi assim no cinqüentenário, em 1958, quando alguém sugeriu inaugurar o mausoléu da Academia Brasileira de Letras, trasladando seus despojos da sepultura no cemitério São João Batista, onde jaziam com os de sua mulher, Carolina Augusta Novais Machado de Assis. A idéia não podia ter sido menos feliz. De todos os cantos do país, chegaram protestos de intelectuais, pelo desrespeito à vontade do escritor, expressada em seu testamento: “(...) Desejo ser enterrado na mesma sepultura da minha mulher, cemitério de São João Batista, nº 1359, jazigo perpétuo.(...).” No rascunho desse testamento, Machado de Assis havia manifestado sua ojeriza a ostentações: “(...) Na laje que a cobre, abaixo do seu epitáfio [Carolina A. N. Machado de Assis «20-2-1855 V20-10-1904], se houver de ser aberto o meu, com a inscrição do nome por esta forma – J.M. Machado de Assis, a data do meu nascimento e da minha morte, tal qual se acha o dela”. Não tinha sentido, pois, pensar-se em trasladação. Nomes de peso da vida intelectual brasileira assinaram as manifestações de protesto, encabeçadas no Rio Grande do Sul por Erico Verissimo e Mario Quintana. Carlos Drummond de Andrade, em 9 de setembro daquele 1958, publicou no Correio da Manhã: “(...) Mais adiante, grande zoeira vinha do cemitério São João Batista. Escavava-se um lauto e solene buraco, e à sua borda se lia o cartaz: ‘Obras da Academia de Letras’. ‘Que é isso? Estão catando diamantes da língua para o dicionário, neste estranho lugar?’ - perguntei ao zelador, que me esclareceu: – Não senhor. A Academia está abrindo uma cova mais avultada, para sepultar todos os seus membros com mais conforto: os que já estão enterrados e os que ainda não desencarnaram. Alguns, entusiasmados com a idéia, estão dispostos a ser enterrados vivos, e só uns poucos pensam em deixar de ser acadêmicos porque preferem a vida (...).” A pá de cal veio de Rubem Braga: “Essa idéia que alguém da Academia teve de tirar os restos mortais de Machado daquele jazigo em que ele está ao lado de sua Carolina me parece infeliz. Deixem o homem junto de sua companheira e desistam dessa idéia demasiado fúnebre de carregá-lo para um panteão onde ele se enfadaria mortalmente com certos companheiros de imortalidade (...)”. Definitivamente sepultada a idéia, nunca mais se tocou no assunto.
 Fonte: www.coletiva.net

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