terça-feira, 4 de março de 2008
América Latina
Colômbia: um país em busca de si
01ª - parte
por RUDÁ RICCI*
Colômbia, desde o final do ano passado, se constituiu numa atração especial para analistas políticos e para os que acompanham o cenário internacional. A libertação, pelas FARC (Fuerzas Armadas Revolucionarias de Colômbia), de reféns, movimentou discussões intensas em todo espectro ideológico. Em seguida, a resposta desastrada do governo Álvaro Uribe, que gerou a morte de Raúl Reyes, o segundo nome do comando das FARC, alimentou ainda mais a tensão na região, promovendo discursos radicais de oposição à sua liderança por parte dos governos de esquerda da Venezuela, Bolívia e Equador. Reyes tinha como aliados Joaquín Gómez e Iván Ríos (nos segmentos menos moderados das FARC) e Iván Máquez, Pablo Catatumbo e Alfonso Cano (mais moderados). Também tinha influência e vínculos com os segmentos militarizados (como Fabián Ramírez e Carlos Losada). Portanto, era uma liderança com amplo trânsito político nas FARC. Reyes era apontado pela França, Espanha e Suíça como o pólo de negociação possível para a promoção da paz na Colômbia. Sua morte, portanto, interessa a quem deseja a guerra.
A Colômbia, infelizmente, é ainda uma incógnita para a maioria dos brasileiros, incluindo a grande imprensa. Recentemente, tive oportunidade de estar em diversos encontros e seminários acadêmicos com lideranças políticas e intelectuais da Colômbia. Os relatos foram objetivos e extremamente preocupantes.
Fábio Velásquez, da Fundação Foro Nacional pela Colômbia (http://www.foro.org.co/), traçou, num seminário sobre democracia na América Latina realizado em Guadalajara, um rico painel do país mais analisado no momento. Iniciou dizendo que, ao contrário do Brasil e Argentina, trata-se de um país unitário, não federado, marcado por ditaduras fortíssimas e divisão do país em guerrilhas e controle territorial de grupos paramilitares de direita, todos municiados pelo narcotráfico. Paradoxalmente, em 1986, a Colômbia iniciou uma reforma política que gerou grande descentralização e institucionalizou a participação popular (através de mais de 30 mecanismos e instrumentos legais). Um forte movimento municipalista fortaleceu o poder local. Tratava-se não de radicalizar a democracia, mas de criar uma alternativa à corrupção que assolava todo sistema político. O fato é que dez anos depois, grupos paramilitares começam a capturar as organizações locais, percebendo o movimento de descentralização. A costa leste do país passou a ser comandada por esta estrutura de extrema direita, com fortes raízes e relações com o Exército e o governo Uribe. No extremo oposto do país, das sete organizações guerrilheiras, restaram duas: FARC e ELN. Para Fábio, a Colômbia gerou um "clientelismo armado", enraizado e pulverizado. O narcotráfico também possui esta estrutura, ramificada, com diversos núcleos de comando, muito infiltrada em toda estrutura institucional da Colômbia. Não se trata mais de grandes cartéis (embora ainda existam), mas de uma rede de pequenos, médios e um ou outro grande grupo que se espalham pelo país.
*Sociólogo, Doutor em Ciências Sociais, Diretor Geral do Instituto Cultiva, membro da executiva nacional do Fórum Brasil de Orçamento e do Observatório Internacional da Democracia Participativa.
SITE: www.cultiva.org.br .
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E-MAIL: ruda@inet.com.br
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