Diploma impede o empresário de dominar sobre a consciência do jornalista (Torves/Fenaj)
Heitor Reis*
Tenho a honra de ter conhecido o Torves (José Carlos Torves) pessoalmente, durante o período em que vivi em Porto Alegre. Lamento ter tido somente uma oportunidade de tomar uma cerveja com ele, no histórico Mercado Público, durante uma confraternização da diretoria da Abraço-RS - Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária. Temos nos entendido muito bem durante eventos que participamos juntos, privilegiando-me ele ao ouvir e comentar gentilmente meus tradicionais radicalismos.
Sempre moderado em seus atos, gestos e palavras, é difícil conhecermos alguém mais gentil, que, com sua discrição, funde sociólogo, jornalista e doutor em comunicação, tornando-o um dos mais destacados representantes nacionais da categoria. Para tanto contribuiu o mais legítimo espírito de luta gaudério aplicado para que aquela província de São Pedro do Rio Grande do Sul lutasse bravamente, durante dez anos, para tornar-se uma república independente, ao invés de parte do estado imperial unitário e gerasse ali uma cultura extraordinária e vibrante que me seduziu, a ponto de cunhar frases como: Joguem minhas cinzas no Guaíba.
Antes de continuar, é importante frisar que vejo esta questão do diploma como secundária, diante do verdadeiro problema que esta profissão encontra, conforme indicações, ao final, de textos que produzi neste sentido. Por isso, não é meu propósito defender uma posição contraria ou a favor do diploma! Mas analisar alguns dos argumentos que são usados neste debate, redirecionando-o para o que julgo fundamental. Propiciar um bom debate, para a felicidade geral da Nação, propósito que compartilho plenamente com o Torves.
Então, passemos a considerar os termos desta tese, dentro dos padrões de procedimentos originariamente adotados pelo cirurgião sem diploma e grande filósofo inglês, Jack, o estripador, amplamente aplicados em qualquer contemplação científica:
(1) Diploma: forma de garantia da liberdade de expressão para a sociedade
- Como eu gostaria que o Torves estivesse absolutamente certo!... Também não vejo demérito na defesa do que acreditamos com paixão, mas, neste caso, a razão ficou bastante chamuscada. Por mais que eu tente, não consigo assimilar esta idéia e ir além de: Diploma: uma das possíveis e inúmeras formas de garantia da liberdade de expressão para a sociedade. Se somente o diploma fosse capaz de garantir a liberdade de expressão para a sociedade, alcançar esta condição, ainda tão distante, estaria muito mais fácil. Mas a coisa é de uma complexidade enorme, indo muito além deste aspecto. Não há liberdade de expressão, apesar de o diploma ser exigido há tanto tempo. O que há, de fato, é liberdade de manipulação da informação, magistralmente registrada por Perseu Abramo, identificando a mídia como inimiga do povo brasileiro.
(2) Diploma: universalizando o acesso à profissão
-Talvez ele não esteja querendo dizer o que eu entendi. Talvez fosse uniformizando, não sei... Mas eis o que eu percebo: Muito antes pelo contrário! A exigência do diploma jamais poderá, nem de longe, produzir tal efeito (universalizar), exatamente porque somente aqueles que forem aprovados num curso profissionalizante terão acesso à profissão. Portanto, minha tese é exatamente oposta: Somente com a não exigência do diploma é que se universalizará o acesso à profissão.
(3) Diploma: impede que os proprietários venham a ser, também, os donos das consciências dos profissionais que trabalham nas redações
- Se o diploma impedisse tal aberração, nossa mídia já teria sido transformada em algo confiável e não na enganação generalizada estudada por Perseu Abramo, em obra já citada. Caso os proprietários, atualmente, não sejam donos das consciências profissionais dos jornalistas, a situação seria ainda pior: Os jornalistas teriam liberdade para fazer a coisa certa, mas prefeririam se aliar aos seus patrões na tarefa de enganar a opinião pública.
No mínimo, os patrões determinam os critérios para que os editores escolham as pautas, quando não as fazem eles mesmos pessoalmente, discriminando tim-tim-por-tim-tim como realizar e editar a matéria. Quer exemplo melhor que o do jornalista Roberto Marinho, no caso Lula X Collor, em 1989, em que foi refeito um trabalho com o objetivo mostrar o melhor do Caçador de Marajás e o pior do Sapo Barbudo, durante o debate realizado entre eles?
“O que conta Conti em seu livro? Que Roberto Marinho não gostou da versão do debate do Hoje e ordenou a Alberico: ‘Faça a matéria correta’. Pouco antes de o JN ir ao ar, Vianey Pinheiro flagrou Otávio Tostes finalizando a nova edição. Ao perguntar a Tostes ‘o que você está fazendo?’, ele ouviu como resposta: ‘O Ronald e o Alberico mandaram refazer tudo’. Marinho nunca contestou o livro de Conti. Nem Tostes. Nem Pinheiro. Só Ronald, que reclamou de não ter sido ouvido. Conti disse que se contentou com entrevistas anteriores de Ronald e que sua versão ‘não corresponde à verdade’.”
Estimo que todos os envolvidos tenham diploma, que, na hora do pega pra capar, não fez e não fará diferença alguma! Impediu que o patrão não dominasse sobre a consciência dos “profissionais”? E se não tivessem diploma, também nenhuma diferença faria... Quando o público é composto por 74 % de analfabetos e semianalfabetos, é facilmente enganado por deturpações desta natureza! Somente um público com capacidade crítica pode frear esta bandalheira. E raros são estes casos em nosso Quinto dos Infernos!
Um diploma teria a capacidade de impedir que um jornalista depusesse um presidente da República, através de um golpe midiático, antes mesmo dele tomar posse, como no caso de Lula? Ou empossado, como no caso do Chávez? Ou de contratar a Proconsult para manipular os dados da eleição de um governador?
Caráter é uma questão tão profunda, que jamais poderá ser aprendida numa escola inferior ou superior. E se fosse possível, o mundo empresarial exigiria que se formassem canalhas altamente especializados neste mister, em todas as profissões para auferir e maximizar seus lucros a qualquer custo, com disciplinas que os orientasse para fazê-lo de uma forma tal, que não fossem descobertos.
Quanto mais se fatura, mais assegurada é a impunidade e as vantagens do furto. O poder jamais corrompe as pessoas, como se diz geralmente. Ele apenas cria as condições para que se manifeste o verdadeiro caráter do indivíduo. O poder funciona como uma ferramenta reveladora de nossa real natureza. A miséria também.
Quem manda é o patrão. Quem não obedece, vai para rua e ponto final. É isto que precisa ser mudado! O resto é mera fantasia surrealista, cortina de fumaça, pirotecnia, etc.
Encerro aqui, com a única condição que julgo necessária e suficiente para dar o diploma de jornalismo para um cidadão verdadeiramente alfabetizado. Ou mesmo o emprego, sem o diploma: O verdadeiro jornalismo, o jornalista de fato e a mídia realmente livre divulgam, com a freqüência e ênfases adequadas, idéias, fatos, pessoas e organizações que os poderosos se esforçam para esconder, minimizar ou criminalizar. O resto é assessoria de imprensa, omissão, manipulação, entretenimento ou mero diletantismo filosófico.
*Heitor Reis é Engenheiro Civil em Belo Horizonte
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