Se há uma década, apostar no fechamento de um jornal com circulação de 50 anos ou mais era um exercício temerário, hoje temerário é imaginá-lo continuar funcionando, adotando as mesmas ferramentas e estratégias.
Dezenas de publicações diárias em todo o mundo, especialmente nos países que contam com mais tecnologia, encolheram ou fecharam suas redações nos últimos dois anos. Outras correm riscos sérios, especialmente as que relutaram frente às mudanças ou as entenderam apenas como parte de uma crise passageira.
Na realidade, desde que se inventou a primeira prensa para imprimir papel, nada de tão inovador surgiu no âmbito da informação como a Internet, ferramenta ao alcance de bilhões de pessoas. Poderosa sim, mas não a ponto de substituir o prazer e a clareza que emanam de páginas bem estampadas e aproveitadas.
O gasto de impressão e os demais necessários para levar 250 gramas de papel até a casa do leitor continuam compensadores para quem procura uma visão artística e um entendimento melhor dos acontecimentos.
Notícia e papel, leitura e cultura, arte e bom gosto não cabem nas telas LCD, nos raios laser e nos impulsos de chips como no papel colorido. Ele não decorará só paredes ou embrulhará presentes.
Verdade: apenas de papel não poderá viver uma empresa de notícias. Ela precisa alinhar-se aos novos tempos, às múltiplas opções, e terá que descobrir, como alquimista no seu cadinho, a forma de remunerar seus esforços.
Enfim, como qualquer empresa, depende do lucro para encher estômagos e pagar salários. Na sexta-feira, 29/05, sem muito alarde e sob o peso de 90 anos de circulação, quase sempre gloriosa, parou de circular a "Gazeta Mercantil", um ícone do jornalismo brasileiro, uma referência do mundo dos negócios dificilmente substituível. Deixa saudade.
A "Gazeta" é o exemplo radiante de quase tudo o que uma editora moderna não deve e não pode fazer. Enquanto olhava para o céu, que parecia ser seu futuro, tropeçou em todos os buracos da história. Faltaram-lhe, ainda, planos de adequação; menosprezou tecnologias, burocratizou a administração, jogou ao vento e ao mar seu farto patrimônio.
Os últimos anos serviram para alongar um estado de falência que já parecia irreversível na virada do milênio.
Encerrou-se o ciclo da "Gazeta", mas a imprensa continua viva, necessária e insubstituível, nas formas e com a intensidade que a tecnologia lhe oferece.
Sem dúvida, o "papel" ainda é o meio mais agradável e eficiente para ela se manifestar.
*Vittorio Medioli é fundador do jornal O TEMPO
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