terça-feira, 1 de abril de 2008

DRÁCULAS E 1964

Laerte Braga* O 1º de abril, desde 1964, é um dia em que todos devemos sair de casa com um pedaço de arruda no canto da orelha, uma cruz pendurada no pescoço e um punhado de alho no bolso. É quando os golpistas sobreviventes de 1964 se reúnem na Transilvânia, no castelo do príncipe Vlad Tepes, e em meio a taças do sangue dos desaparecidos políticos e dos assassinados nas câmaras de tortura , se confraternizam e se regozijam na esperança de uma réstia, não de alho, mas de autoritarismo e barbárie que implantaram no Brasil com a derrubada do governo constitucional do presidente João Goulart. Os seguidores de Drácula, que vem a ser "filho do dragão" (que não tem nada a ver com isso, muito menos o de São Jorge que segundo o próprio santo admitiu a "Tia Nastácia" quando os meninos do sítio do Picapau Amarelo foram a lua, já estava cansado e conviviam em paz), se juntam em torno das páginas vermelhas de sangue da história sombria e tenebrosa da ditadura a relembrar causos de pau de arara, choques elétricos, estupros, assassinatos, toda o espectro de violência que tentam a todo custo manter escondida a despeito de declararem o contrário. É claro. Criminoso admitir culpa é o negócio mais complicado no mundo desde que o mundo é mundo. E é célebre a visita do califa Omar a uma prisão em Bagdá e a pergunta feita a cada preso sobre o motivo pelo qual lá estava. Exceto um que se declarou culpado do crime pelo qual fora condenado, os demais, todos, se proclamaram inocentes. Omar mandou soltar o "culpado". "Soltem este homem, pois é o único que diz a verdade aqui". Paulo Maluf um político típico da ditadura, produto da ditadura, não disse com os olhos fixos na câmera que o fato de um cidadão com seu nome, CPF e endereço era homônimo e o resto coincidência pois não "tenho conta bancária em Jersey?" A abertura do baú da ditadura, toda a série de documentos sobre a guerrilha do Araguaia, a Operação Condor (realizado em comum com ditaduras da Argentina, Chile, Paraguai e Uruguai), as operações internas de prisões indiscriminadas, sequestros, tortura, assassinatos, estupros, eliminação pura e simples de adversários do regime sem culpa formada, IPMs montados com provas forjadas, ensejando, entre outras coisas, a localização dos corpos dos desaparecidos até hoje e o conhecimento de um período do passado que vai permitir reconstituir o lhame do processo histórico em sua totalidade para o futuro. Às gerações de hoje e às futuras. Hoje vive-se o mundo "real" da alienação montada em luzes natalinas, pastas que escondem montagens vergonhosas, seres humanos transformados em bolas prontas a serem encaçapadas na sinuca do mundo globalitarizado, um exército de zumbis que deixa que façam, na esteira do espetáculo comandado pela tevê GLOBO e a grande mídia. "Trabalha, trabalha negro..." – Versos de Ary Barroso que, curiosamente, era udenista e por esse partido exerceu o mandato de vereador na cidade do Rio de Janeiro. Juliana Góis, 22 anos, ex-BBB, agora sob risco de ser atingida pelos ovos podres de Boninho, disse a jornalistas que a "direção do programa cria um clima de romance entre os participantes da casa para aumentar o IBOPE". Assumiu que as festas rolam para "incrementar climas e aliviar a turma que fica confinada". É a nova versão do castelo de Drácula, mas os resistentes de 1964 preferem ainda a reunião anual na Transilvânia. Tem alvorada (não são muito chegados), mas o toque de recolher, quando se voltam para as salas em que as portas rangem e ficam à espera da meia noite. É quando estouram as champanhes de sangue que escorreu da violência e estupidez. Safra 1964. Vernon Walthers e Dan Mitrione, em espírito lógico, se fazem presentes para inspirá-los. E figuras como Castello Branco, Médice, Figueiredo, Geisel e as respectivas cortes de draculinhas.
*Laerte Braga é Jornalista

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