quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Os irmãos Karamazov

Nelson Rodrigues* Começo aqui a minha grave função homérica. Minha memória é um chão todo juncado de clássicos e peladas fenecidos. Antes, porém, de exumar os velhos jogos, preciso explicar toda a minha dramática relação com o Fluminense. Sou Tricolor, sempre fui Tricolor. Eu diria que já era Fluminense em vidas passadas, antes, muito antes da presente encarnação. Vejo-me em Aldeia Campista, garoto de pé no chão e calça furada. Teria quatro anos, se tanto. 1916. A Primeira Grande Guerra ainda matava milhares, ainda matava milhões. E como então se promovia mundialmente o bigode do Kaiser! Esse bigode era o grande assunto da caricatura, em todos os idiomas. Para mim, moleque da rua Alegre havia uma relação nítida e taxativa entre a guerra e o Fluminense. Seriamos campeões em 17, 18 e 19. Ainda hoje, meio século depois, tenho a sensação de que a Grande Guerra trazia no ventre o tricampeonato Tricolor. Vejamos o absurdo: a Grande Guerra seria apenas a paisagem, apenas o fundo das nossas botinadas. Enquanto morria um mundo e começava outro, eu só via o Fluminense. Quem ia ao futebol era Milton, o meu irmão mais velho. Acompanhava o Tricolor, com uma obstinação de fanático. Quando ele chegava, de noite, eu vinha correndo perguntar: - "Quem ganhou". E ele, tostado pelo sol dos clássicos e das peladas: - "O Fluminense!" Era o Fluminense, sempre o Fluminense. Até que, um dia, não foi o Fluminense. Imagino que o leitor esteja fazendo a impaciente pergunta: - "E o Flamengo?". Hoje, o Rubro-Negro, por onde vai, arrasta multidões fanatizadas. Há quem morra com o seu nome gravado no coração à ponta de canivete. Mas eu não falei no Flamengo e explico: - O Flamengo nem sempre foi Flamengo. Cada brasileiro, vivo ou morto já foi Flamengo por um instante, por um dia. Vale a pena voltar a 1911, ou 12, não sei. Como eu dizia, o Flamengo era ainda Fluminense. Eu disse que o Flamengo era ainda Fluminense e já retifico. Antes do futebol, o Rubro-Negro foi remo ou, melhor dizendo, foi "domingo de regatas". Até que, um dia, houve uma dissidência no Fluminense. Eu gostaria de saber que gesto, ou palavra, ou ódio deflagrou a crise. Imagino bate-bocas homicidas. E não sei quantos Tricolores saíram para fundar o Flamengo. Hoje, nos grandes jogos, o Estádio Mário Filho é inundado pela multidão rubro negra. O Flamengo tornou-se uma força da natureza e, repito, o Flamengo venta, chove, troveja, relampeja. Eis o que eu pergunto: - Os gatos pingados que se reuniram, numa salinha imaginavam as potencialidades que estavam liberando? Há um parentesco óbvio entre o Fluminense e o Flamengo. E como este se gerou no ressentimento, eu diria que os dois são os irmãos Karamazov do futebol brasileiro. *Nelson Rodrigues (Nelson Falcão Rodrigues nasceu no dia 23 de agosto de 1912, no Recife (PE), quinto filho dos catorze do casal Maria Esther Falcão e o jornalista Mário Rodrigues.. Os nascidos no Recife, além de Nelson, foram Milton, Roberto, Mário Filho, Stella e Joffre. No Rio de Janeiro nasceram os outros oito: Maria Clara, Augustinho, Irene, Paulo, Helena, Dorinha, Elsinha e Dulcinha. Nelson morreu no Rio de Janeiro-RJ, no dia 21 de dezembro de 1980) Fonte: www.jornalheiros.blogspot.com Colaboração: Alexandre Magno Barreto Berwanger

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